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20 de Setembro de 2019

O Mundo Desencantado de Max Werber

Sociologia Jurídica - Max Werber

Elvis Rodrigues Carvalho, Estudante de Direito
há 8 meses

RESUMO DE CUNHO CIENTÍFICO SOBRE O MUNDO DESENCANTADO DE MAX WERBER

Resumo: Max Weber faz uma analise sobre a realidade moderna e, nessa análise, volta-se ao passado e, enquanto tipo-ideal argumenta que a racionalização existente nas sociedades contemporâneas recebe grande influência do contexto metafísico-religioso e moral tangenciando no que analiso como estrutura básica a ideia superficial de Kant. Neste paradigma, para ele seria o ponto departida da humanidade. Mas, com o desencantamento do mundo, a vida, e a natureza social passam a ser vistas como passíveis de domínio, pois, nelas não há nada mais de sagrado.

Palavras-chave: Max Weber. Desencantamento do Mundo.

Abstract: Max Weber analyzes the modern reality and, in this analysis, goes back to the past and, as an ideal-type, argues that the rationalization existing in contemporary societies receives great influence from the metaphysical-religious and moral context, tangential in what I analyze as a basic structure the superficial idea of Kant. In this paradigm, for him would be the departed point of humanity. But, with the disenchantment of the world, life and social nature are seen as subject to domination, for in them there is nothing more sacred.

Key-words: Max Weber. Disenchantment of the World. Nature.

INTRODUÇÃO

O objetivo deste resumo se abarca na tentativa de analisar o desencantamento do mundo sob a ética weberiana, focando o olhar em como a existência e acima de tudo a natureza se tornou passível de puro domínio.

O resumo tem o intento de entender um pouco mais sobre a realidade contemporânea, sob a perspectiva do meio ambiente social, e nada melhor do que compreendê-la através da ótica de Weber. E com isso descobrir a relevância que esse tema tem para tal período histórico, considerando que para o autor, a racionalização, que se dá enquanto processo, é uma característica da modernidade. Este resumo pretende caminhar o mais fiel possível ao pensamento original weberiano, apresentando, também, o que consiste a singularidade da civilização ocidental, enquanto imersa num processo de racionalização. Daí buscar compreender como que a racionalização mantida na modernidade pela intelectualizarão, que tem a ciência como grande expoente, caminha com as influências religiosas, despoja a natureza da sua plasticidade mística. De modo algum se tem a pretensão de esgotar o assunto, mas a intenção está em caminhar nos passos necessários, para a compreensão dos conceitos que sustentam a discussão a ser apresentada.

O MUNDO DESENCANTADO

Tal termo é um dos que mais marcam a escrita de Weber, pois com ele o autor descobriu ser possível designar, com propriedade, o longuíssimo período de racionalização por que passou a religiosidade ocidental. E devido a sua importância, especialmente para este trabalho, será analisado a partir de sua terminologia.

É importante lembrar que esse termo, nas obras do pensador alemão, não significa perda, carência. Sendo que o termo desencantamento do mundo não é desencanto, como alguém que se desencanta com outra pessoa, e não pode ser confundido com um estado de espírito que possa se encontrar desencantado, como uma espécie de desapontamento, desilusão. Tais significados nada têm a ver com o que Weber quer dizer quando usa a expressão desencantamento do mundo. Na verdade, este conceito (e isso é muito importante) tem a intenção de explicar o mundo e não lamentá-lo: “O desencantamento em sentido estrito se refere ao mundo da magia e quer dizer literalmente: tirar o feitiço, desfazer um sacrilégio, escapar da praga rogada, derrubar um tabu, em suma quebrar o encanto”. (PIERUCCI, 2003, p.7).

Etimologicamente a palavra desencantamento em alemão é Entzauberung, que tem como significado literal a desmitificação. Aumenta-se a compreensão do termo quando se dá o significado da palavra alemã Zauber, que quer dizer magia, encanto, fascínio atração, etc.

Daí, num primeiro momento, desencantamento é deixar de lado o encanto, perder o fascínio, e Entzauberung der Welt seria a “desmagificação do mundo” num sentido literal, e que no contexto das obras de Weber ganha o significado de desencantamento do mundo.

A posição aqui dotada é a de que ele se inspirou para criar tal termo nas reflexões estéticas do poeta alemão Friedrich Von Schiler (1750 -1805). A palavra utilizada por este autor era Entgötterung der Natur, que tem como significado desendeusamento da natureza: “Parece mesmo que Weber era dado a tomar empréstimos da alta literatura alemã.” (PIERUCCI, 2003, p. 30). E Weber, por sua vez, “... usa a idéia de “desdivinização” para se referir precisamente ao “mecanismo desdivinizado” do mundo.” (PIERUCCI, 2003, p. 30).

Segundo um estudo pormenorizado que o comentador de Weber, Antônio Flávio Pierucci fez do termo aqui analisado, Max Weber usa dezessete vezes o termo desencantamento do mundo, “... das dezessete incidências do significante, em nove ele vem usando para significar “desmagificação”; em quatro, com o significado de “perda de sentido”, e nas quatro restantes ele vem com as duas acepções.” (PIERUCCI, 2003, p. 58). Assim, quando ele fala de desencantamento do mundo, está querendo se referir ao um mundo onde há uma “desmagificação” e/ou perda de sentido.

Mas tal termo não é unívoco, ele muda dependendo da questão da qual está tratando e aqui está se referindo a um mundo duplamente desencantado. E para tanto, são duas as forças que atuam neste processo de desencantamento do mundo. Uma delas é a própria religião que age num processo de “desmagificação” das vias de salvação; a outra é a ciência, uma força empírico-intelectual, que ao desencantar o mundo, o transforma num mero mecanismo causal. Assim, acontece o desencantamento do mundo todas as vezes em que os elementos mágicos do pensamento vão sendo desalojados do contexto religioso, e todas as vezes em que as ideias vão possuindo cada vez mais uma consistência sistemática e também naturalística, ou seja , científica.

Cabe, antes de tudo, analisar as forças deste processo, buscar entender o que seria o Jardim Encantado, ou seja, aquele contexto que antecede o desencantamento, para que seja mais fácil assimilar as forças que operam no desencantamento do mundo.

CIÊNCIA ENQUANTO DESENCANTAMENTO DO MUNDO

Eis, na análise deste trabalho, a segunda força que desencanta o mundo, a ciência que possui um papel importante neste processo, acima de tudo porque ela pertence a esse processo de intelectualização do qual escreve Weber.

Nessa posição o desencantamento do mundo, operado pela ciência, se caracteriza por desfazer a imagem de mundo religioso, de um Deus transcendente, este é o principal ponto de partida para este tópico, pois o intelectualismo peculiar à ciência moderna refuta a ideia de que o mundo possua um significado que lhe é conferido por um Deus. Assim,o termo é usado para “... dar conta também dos efeitos corrosivos da ciência experimental moderna sobre as pretensões de validade objetiva das visões de mundo que veem o mundo dotado de um sentido objetivo...” (PIERUCCI, 2003, P. 142). É exatamente contra esse postulado que a ciência age como uma força desencantadora. Se por um lado, antes, com a religião, desencantava-se o mundo da magia, dos rituais, dos deuses, dos espíritos, buscando mostrar que o que há é uma visão una da realidade, com a ciência é agora esta imagem que é desencantada.

As distinções entre racionalidade relacionada a fins e a racionalidade quanto a valores estão diretamente ligadas ao conceito de ação social, também discutido por Weber. De forma sucinta, a ação social é entendida por Weber como qualquer ação realizada por um sujeito em um meio social que, necessariamente, possua um sentido determinado por seu autor. A ação pode ser então racional com relação a fins, quando há o calculo de meios a serem tomados para que um objetivo seja alcançado; racional afetiva, que está associada aos sentimentos; e tradicional, que está mais próxima da irracionalidade, uma vez que se baseia no costume e no hábito.

Weber acreditava que, em nossa sociedade, grande parte da vida social havia sido reduzida à lógica racional. Isso quer dizer que características do mundo social que se baseavam na tradição, como a crença religiosa, dissolveram-se. A modernidade construiu-se em meio aos conflitos ideológicos da razão objetiva instrumental, utilizada como ferramenta de abordagem de questões do pensamento humano e de sua realidade, e o pensamento tradicional foi progressivamente abandonado. Weber referiu-se a esse fenômeno como o processo de “desencantamento do mundo”, no qual o sujeito moderno passou a se despir de costumes e crenças baseados em tradições herdadas ou aprendidas que se apoiavam nos pilares fixos das religiões ou da “magia”. Explicações e questionamentos baseados na utilização da razão instrumental quebraram noções preconcebidas e ancoradas no núcleo religioso tradicional.

O trabalho de Weber é proeminentemente usado pelas matérias que se dedicam aos estudos administrativos, e com razão, pois é notoriamente voltado para o estudo das instituições administrativas. Foi justamente nesse âmbito que Weber enxergou com maior força os aspectos do processo de racionalização do mundo moderno. As instituições do mundo pré-moderno que se baseavam na tradição deram lugar a uma complexa rede organizacional que se estrutura pela burocracia e pela hierarquia.

Alguns teóricos argumentam que os impactos desse processo estão indicados na impessoalidade e apatia do processo burocrático, que, apesar de necessário nas complexas organizações que temos hoje, exacerba o crescente sentimento de abandono e apatia do sujeito moderno em função do desolamento causado pelo fatalismo de um mundo ultrarracionalizado.

OS TRÊS TIPOS DE DOMINAÇÃO SEGUNDO MAX WEBER

Em sua obra "Economia e Sociedade", publicada dois anos após seu falecimento por sua esposa, Weber classifica a Autoridade em três tipos, dependendo principalmente das bases da Sociedade em questão, ou seja, das bases de sua legitimidade:

Racional-Legal: origina-se de regras, estatutos e leis sancionadas pela Sociedade ou Organização. Tais regras definem a quem obedecer e até quando obedecer, tornando possível a aceitação, por parte dos subordinados, de um superior devido uma consciência de que este tem direito de dar ordens, ou seja, reconhecem que a Autoridade está no cargo ocupado e não na pessoa que o ocupa, que só pode exercer a Dominação dentro dos limites estabelecidos pelo cargo ocupado.

Sendo assim, a associação dominante é eleita ou nomeada pelas leis e regras definidas por todos, com a idéia básica de que qualquer direito pode ser criado ou modificado mediante um estatuto sancionado corretamente, ou seja, que leve em consideração as necessidades de todos os envolvidos, e os subordinados são membros da associação. Aqui o poder é impessoal, obedecendo-se à regra estatuída e não à pessoa, a administração é extremamente profissional e também está subordinada ao estatuto que a nomeou, não possui influência pessoal e/ou sentimental e seu funcionamento tem por base a disciplina do serviço.

As nomeações obedecem a exigências e competências profissionais para a atividade de um cargo, são baseadas em contratos de serviço, recebem um pagamento fixo de acordo com o cargo ocupado e possuem iguais chances de ascensão de acordo com as regras pré-estabelecidas. Logo, conclui-se que esta forma de Autoridade nos remete diretamente às instituições burocráticas, onde quem ordena é dito superior e os que obedecem são os profissionais, e que tal Dominação só foi possível com a consolidação do Sistema Capitalista de Produção, que realizou a transição de uma Sociedade baseada em valores (tradicional) para uma orientada para objetivos, com regras e controle racional dos meios para atingir os fins. Exemplos: empresas capitalistas privadas, a estrutura moderna do Estado, forças armadas, etc.

Tradicional: tem como base de legitimação, e de escolha de quem a exercerá, as tradições e costumes de uma dada sociedade, personificando as instituições enraizadas no seio desta sociedade na figura do líder. Acredita na santidade das ordenações e dos poderes senhoriais, em um "estatuto" existente desde o principio, com o poder emanando da dignidade própria, santificada pela tradição, do líder, de forma fiel.

Neste tipo, quem ordena é o senhor e quem obedece são os súditos, as regras são determinadas pela tradição, é regida pela honra e a boa vontade do senhor, que é considerado justo, e há uma prevalência dos princípios de equidade material em detrimento dos formais na atividade administrativa. Exemplos: a dominação patriarcal (tipo mais puro dessa dominação), uma aldeia indígena, a monarquia, os despotismos, o Estado Feudal, etc.

Carismática: etimologicamente, é aquela apoiada na devoção a um senhor e a seus dotes sobrenaturais (carisma). A influência só é possível devido qualidades pessoais, tais como faculdades mágicas, revelações, heroísmo e poder intelectual ou de oratória, com depósito de confiança em alguém que é visto como um herói, santo, salvador ou exemplo de vida, extinguindo-se quando há perda de credibilidade ou quando as virtudes que geravam tal influência sofrem desgaste, em outras palavras, a Dominação só dura enquanto há carisma. Nesta, quem ordena é visto como líder e os dominados são considerados apóstolos, discípulos, pupilos, seguidores, fãs, etc.

O poder é pessoal, ou seja, obedece-se a pessoa por suas qualidades excepcionais e não por uma posição ocupada por ela formalmente ou por uma dignidade advinda das tradições. Este tipo de autoridade não deriva do reconhecimento, por outro lado, o reconhecimento e a fé são considerados deveres. Desconhece o conceito de competência ao nomear seu quadro administrativo sem considerar qualificações profissionais e também o de privilégio ao desconsiderar os costumes. Aqui o dominador é visto pelo dominado como alguém que possui uma missão a ser executada na Terra e, portanto, não necessita de regras e pode ser considerado como acima de toda lei imposta, pois necessitaria apenas de suas qualificações carismáticas para cumprir seus desígnios.

Desprende-se da tradição devido à revolução ou renovação que o líder anuncia e a aceitação de suas ordens é de caráter obrigatório, desde que outra, também de origem carismática, não se oponha, quando há uma disputa entre líderes, onde somente a comunidade e a força do carisma de ambos, que será comparada e mensurada, irão decidir de qual lado está a "verdade". Este tipo de Autoridade é um dos maiores impulsores das revoluções pela qual a humanidade passa, entretanto, por ser extremamente pessoal, tende a ser autoritário em sua forma mais pura. Exemplos: grandes demagogos, Fidel Castro (na época da Revolução Cubana), Antônio Conselheiro, Gandhi, Adolf Hitler, Hugo Chaves (Venezuela), Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil) e etc.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho, cujo objetivo era o de aprofundar a reflexão que Max Weber faz acerca do desencantamento do mundo, alcançou seu objetivo.

O homem moderno, mesmo que não perceba diretamente, recebeu o efeito dos conteúdos religiosos, legais e tradicionais na conduta de sua vida. Daí dizer que a pesquisa perseguiu seu objetivo e o encontrou. Uma vez que a trajetória que se fez foi a de buscar compreender como o pensador alemão apresenta, que certa forma de religiosidade alimenta a racionalização de tipo ocidental, caracterizando a singularidade da civilização ocidental moderna, pois, racionalizações, como afirma Weber, sempre existiram, mas na modernidade ela recebe uma nova roupagem.

A natureza não é vista mais como um jardim encantado, passível de contemplação, respeito, admiração. Ela não possui mais sentido, é uma mera máquina que tem que produzir.

Entretanto a ordem diante da ameaça do caos social depende dos pilares asseverados de forma legitima na legalidade, na autoridade familiar e em valores da tradição educacional.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. 6 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

PIERUCCI, A. F. O Desencantamento do mundo: Todos os passos do conceito em Max Weber. São Paulo: 34, 2003.

SELL, C. E. Sociologia clássica. Itajaí: Edifurb, 2002.

WEBER, M. A ciência como vocação: In: Ensaios de sociologia. 5 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. p. 154-183.

MAXIMINIANO, Antonio Cesar Amaru. Teoria geral da Administração: da escola científica à competitividade na economia globalizada. 2 ed.-São Paulo: Atlas, 2000, Capítulo 3.

MOTTA, Fernando Cláudio Prestes; VASCONCELOS, Isabella Gouveia de. Teoria Geral da Administração. 3 ed.rev.-São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2006. Capítulo 5.

WEBER, Max. Os Três Tipos Puros de Dominação Legítima. Tradução de Gabriel Cohen. Rio de Janeiro: VGuedes Multimídia, 2008.

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